A euforia tomou conta do acampamento Santo Dias, em São Bernardo do Campo, na última segunda-feira. As três mil famílias comemoravam a vitória de uma luta árdua: a suspensão da liminar de reintegração de posse que estava pronta para despeja-las do terreno da Volkswagen a qualquer momento. Depois de um dia tenso, o clima era de final de copa do mundo. Todos se abraçavam e gritavam sem parar “MTST, a luta é pra valer”, “MTST, a luta é pra valer”...enquanto a boa notícia se espalhava.
Porém, a vitória ainda não assegurou a conquista do terreno. A decisão provisória do 1º Tribunal de Alçada Cível de São Paulo garante apenas um fôlego para que as famílias sem-teto possam negociar uma solução pacífica para a questão. Elas esperam vencer o descaso do governo do Estado de São Paulo, a imobilidade da prefeitura de São Bernardo do Campo e a intransigência da própria Volkswagen. Mas poder público e empresa parecem não se sensibilizar com a situação das famílias e de mais de duas mil crianças que estão no acampamento. Pelo contrário, enquanto não saía a decisão da Justiça, quiseram deixar claro a falta de vontade em negociar uma solução pacífica para a questão.
Na segunda-feira de manhã, numa reunião com o comando da polícia militar, advogados da Volkswagen, coordenadores do MTST, parlamentares e representantes da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a transnacional endureceu o tom e fechou as portas para qualquer tentativa de negociação. Ao final, o MTST foi informado de que a polícia militar começava a preparar o efetivo e poderia realizar o despejo a qualquer momento.
Na tentativa de buscar a intervenção do poder público, cerca de mil famílias partiram em marcha para a prefeitura de São Bernardo do Campo. Elas queriam apenas ser recebidas pelo prefeito da cidade. Mas, sem razão alguma, a polícia implantou um clima de terror na cidade. Tratou como bandidos pessoas que lutavam por uma vida digna, que estão em busca de teto e trabalho. Mandava o comércio fechar as portas nas ruas onde as famílias sem-teto passavam. No entanto, a mobilização na frente da prefeitura não sensibilizou o prefeito William Dib (PSB). Ele se recusou a receber uma comissão dos sem-teto.
Já a atitude do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), não foi de imobilidade. Ele foi à televisão defender a ação policial e pedir para que as famílias deixassem o local pacificamente. Recado que era repetido nas emissoras de rádio. Segundo eles, o despejo poderia ocorrer a qualquer momento. Mais uma vez o clima de terror foi implantado, desta vez no acampamento. As famílias que ficaram para garantir a segurança do terreno estavam amedrontadas, mais de duas mil crianças estavam no local.
Desta vez, venceu a vontade popular! A suspensão da liminar foi um alívio para as famílias que não conseguiam acreditar na boa notícia. Nessa primeira batalha, saíram vitoriosas. Mas, infelizmente, essa não é a vitória final. A decisão da justiça não garante a conquista do terreno, apenas alguns dias para que se tente negociar uma solução pacífica. As famílias esperam que o poder público cumpra seu papel e não trate um problema social como caso de polícia.